mas em uma dimensão exponencialmente diversa. Quando Laura Franciscato reescreve a caligrafia da avó na panela de barro, faz surgir o tempero da lembrança, de quem sabe o sabor daquele macarrão! Esse movimento de ver o que não está ali, mas que se faz sentir, pode ser aproximado à frase que compõe a poesia de Cora Coralina: “Coração é terra que ninguém vê”. Nas narrativas dos livros de terra atravessadas pela dimensão intensificada pelo tempo, percebemos também o pulsar da vida, como na coleção de livros de artista realizada pelo grupo de professoras de São José dos Pinhais, que retomam a infância e o ambiente como entrelaçamentos contínuos, quando as brincadeiras, encantamentos e experiências elegem as motivações da vida cotidiana. Por outra via, o pó e a flor nas fotografias de Glaucia Flügel prestam homenagem ao instante, onde buscamos reter a beleza presente do tempo fugidio. Também Andressa Lemos procura retomar as cenas de afeto entre as pessoas nos espaços arborizados, ao ar livre, como momento de desfrute em vias de apagamento pelas cidades cinzas. Na maleta de pintura de campo, de Ana Elisa de Castro e Freitas, o livro de cerâmica retoma palavras ancestrais, e a caixa carrega também o peso das terras e seixos, molda as representações dos grandes rios em línguas originárias, como grandes confluências que nutrem o sentido materno da terra, por onde o interesse nômade de captura transita. Guardados em caixa comum de papelão, os pesados e inacessíveis livretos de cerâmica de Maria Helena Saparolli deixam-nos recordar das capas adornadas e das escritas e anotações recolhidas, como arquivos com conteúdos acessíveis pela imaginação criativa e lembranças. No livro em cruz de Giovana Tartas, as fotos de família mesclam-se às paisagens rurais, seus embates e avessos ainda estão presentes na terra onde nasceram e que não habitam mais. 09 Possíveis roteiros de leitura Transformações e processos construtivos Segundo Paul Klee, “o movimento é base de todo devir”, e o devir como livro de terra indica conjunções, coletas, sobreposições, reconhecimento das energias que passam a compor nossas existências, que arquitetam e dão chão ao solo, tijolos ao acaso modular, remontam às origens dos pigmentos, tons, materiais. O trabalho de Nicole Christine documenta as calçadas, indaga as escritas polifônicas urbanas e retoma os trajetos. No livro de Rettamozo, ComoVer, o chão é palco para a sombra e, em conjunto com diversas pessoas, elabora cenas a partir da frottage, que revela a grafia dos pisos com argila visualizados na publicação por lentes que buscam a terceira dimensão. Com Bianca Castro e Marta Castelo, acompanhamos, de maneiras diversas, o diálogo criativo com o tijolo, em cerâmica ou barro, eles são composições e decomposições em via de reorganizar o espaço-tempo. No livro-objeto de Caim Damico, a cidade desdobra-se entre a geolocalização, o azulejo e o afeto. No livro de Maikel da Maia, as mãos compõem os espaços, ou seriam os espaços compostos por elas? No ateliê de fazer-cerâmica, Aionara Preis e Rosana Bortolin coletam as matérias-primas dessa técnica que se requer perene, mas para fazer-sentir com os dedos, elas apresentam os estados líquidos de cores e densidades, em flutuações do toque. Nas amostras realizadas por Claudete Luginieski, a formulação das tintas, guache, óleo e aquarela, dá-se a partir do ( e com o) terreno habitado, nas amostras ela anota e recupera as denominações familiares, e com isso o estranhamento surge nas tintas, como potências pictóricas a serem reimaginadas. Por outro lado, Francis Rodrigues dedica-se à captura da experiência com a argila moldável, como um caminho para a fotografia e a tecnologia, reconfigurado em seu fichário como estudo das estruturas formais e abertas desse sentir, do bloco ao grão. Esses devires são como elaborações constantes da linguagem, do entorno, do mundo, e, por vezes, eles parecem pausar, repousar, fenecer ou, ainda, retornar, como um desejo atemporal. Mesmo assim, aquele ponto onde a observação parece ser firmada na terra, onde o pouso condensa e ameaça estancar, elencando estratos e sobreposições, mesmo aí percebemos os processos construtivos com a terra, nas camadas revolvidas ao acaso, decompostas por acúmulos e reações, fragmentadas por pressões e abertas para as ressignificações quando retomadas como superfície, como página de inscrição, rasura, marca e leitura. 08