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New Narrative Experiments: Convergence and Hypertext in Fiction Books

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September 27, 2011

New Narrative Experiments: Convergence and Hypertext in Fiction Books

The purpose of this work is to make an analysis about the impact that the hypertext and convergence of new medias have caused in the editorial production of fiction novels. Therefore, an investigation was conducted to find out what are the resources used by authors to better engage readers with their narratives. Different narratives from distinct authors were compared and, specifically, the book The Raw Shark Texts, produced by brittish Steven Hall, for being a work that utilizes groundbreaking resources in cross media, in the effort to promote new interaction levels and involvement between the reader and the story.

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rafaelmatos

September 27, 2011
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  1. CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA DIRETORIA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA, PESQUISA E EXTENSÃO

    CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PROJETOS EDITORIAIS IMPRESSOS E MULTIMÍDIA Novas Experiências Narrativas: Hipertexto e Convergência nos livros de Ficção ALUNO: Rafael Matos da Silva PROFESSOR ORIENTADOR: Prof.ª Ana Elisa Ribeiro BELO HORIZONTE 2009/2º SEMESTRE
  2. Resumo O objetivo deste trabalho é realizar uma análise sobre

    o impacto que o hipertexto e a convergência das novas mídias tem causado na produção editorial dos romances de ficção. Para tanto, buscou-se investigar quais são os recursos utilizados pelos autores para que os leitores tenham um maior envolvimento com as narrativas por eles produzidas. Cotejou-se narrativas de distintos autores e, especificamente, analisou-se o livro Cabeça Tubarão, produzido pelo autor britânico Steven Hall, por ser uma obra que utiliza de recursos inovadores de crossmedia no esforço em promover novos níveis de interação e envolvimento do leitor com a história. PALAVRAS CHAVES: Hipertexto – Narrativa – Convergência – Interatividade Abstract The purpose of this work is to make an analysis about the impact that the hypertext and convergence of new medias have caused in the editorial production of fiction novels. Therefore, an investigation was conducted to find out what are the resources used by authors to better engage readers with their narratives. Different narratives from distinct authors were compared and, specifically, the book The Raw Shark Texts, produced by brittish Steven Hall, for being a work that utilizes groundbreaking resources in cross media, in the effort to promote new interaction levels and involvement between the reader and the story. KEY WORDS: Hypertext - Narratives - Convergence - Interactivity
  3. Introdução Muitas análises, pesquisas e estudos são feitos, hoje em

    dia, na tentativa de prever qual será o futuro dos livros em relação à chegada da Internet, e a provável convergência de praticamente tudo para a rede. Muitos editores, autores, livrarias e designers mais tradicionais se preocupam com a possibilidade da Internet acabar engolindo as publicações originais, no suporte impresso. Porém, existem exemplos de que, pelo menos por enquanto, livros e Internet podem não só conviver em harmonia, como também complementarem um ao outro. O objetivo desse artigo é realizar um estudo sobre as possibilidades de interação e imersão entre os romances impressos e os leitores através de narrativas inovadoras, que utilizem todo o potencial que as novas mídias podem proporcionar. A pesquisa pretende entender o contexto comunicacional no qual esses projetos inovadores se encontram entender a relação existente entre Hipertexto e Literatura e assim tentar descobrir quais os recursos utilizados por autores e editoras para alcançar cada vez mais um maior envolvimento entre o leitor e o livro. O artigo também faz uma análise do livro “Cabeça Tubarão”, de Steven Hall onde o autor cria um universo riquíssimo em detalhes e extremamente instigante, cheio brincadeiras estruturais, imagens e efeitos tipográficos como partes essenciais da trama. Há mensagens cifradas, flipbook, trechos de enciclopédias, fotos e vai além da limitação do suporte papel, expandindo a experiência do romance convergindo para outros meios digitais quase sempre com o auxílio da internet.
  4. O Projeto Editorial na Contemporaneidade Os estudos comunicacionais nos últimos

    anos são marcados por uma verdadeira evolução da sociedade dos meios para uma sociedade de mídia, caracterizada pela forte midiatização dos processos de interação social. Essa midiatização pode ser pensada como uma tecnologia de sociabilidade onde neste processo, a mídia aparece como um novo dispositivo tecnológico para se produzirem relações sociais. Essa sociedade contemporânea pode ser definida como a sociedade da informação. Nela, de acordo com a autora Lúcia Santaella, "a informação (...) circula como moeda corrente”. Vivemos em uma nova cultura: da informática, da rapidez, da simplificação das coisas, do acesso. No século XXI, informação não é mais conservada. ”Se eu lhe dou informação, você a tem e eu também.” (SANTAELLA, 2003, p. 19). Nessa sociedade da informação, as tecnologias se transformam a cada segundo, se redefinem rapidamente, criam redes e, a cada nova conexão, alteram usos, valores, significados sociais e criam incontáveis interfaces. As culturas se modificam. E é neste processo dinâmico de troca constante de informações que surge um novo modelo de projeto editorial, seja ele impresso ou em interfaces virtuais. Proporcionar experiências interativas; escolher as linguagens; abrir canais de comunicação e ser capaz de dialogar com várias mídias, são demandas primordiais desses novos produtos editoriais sempre na tentativa de atender a esta nova audiência que surge, ávida por consumir novas experiências. Uma das formas de socialização da comunicação se dá através do texto em ambientes de hipermídia. O que antes era apenas escrito em livros e reproduzido numa relação linear com o público receptor, ganhou, a partir do processo de digitalização, uma nova apresentação, sinalizada pela migração do conteúdo textual para a tela dos monitores. É o chamado hipertexto. E esse fenômeno agora é replicado em vários suportes, inclusive nos impressos, na busca de novas linguagens. Vemos características do hipertexto em livros, revistas e outros impressos que buscam cada vez mais, convergir com outras mídias e interagir mais com o público.
  5. Todas essas mudanças e avanços tecnológicos geraram uma nova dinâmica

    na relação produtor/consumidor. A linha tradicional entre esses dois indivíduos tornou-se menos visível. Os consumidores agora possuem voz ativa e assumem o papel de produtores também. Deixaram de ser passivos e passaram a ser produtores ativos, comentando e reagindo à grande mídia e em vários casos, alimentando-a. Eles passaram a ser potenciais competidores ou, numa outra perspectiva, parceiros dos produtos que antes só consumia. Diante disso a indústria passou a conceber cada vez mais produtos onde a participação do usuário é peça fundamental para o processo. Para Chris Anderson, autor do livro A Cauda Longa, o principal influenciador nessa inversão de papéis é o surgimento e popularização do computador pessoal, que pôs todas as coisas, desde as máquinas de impressão até os estúdios de produção de filmes e de músicas, nas mãos de todos. “Hoje milhões de pessoas têm a capacidade de produzir pequenos filmes ou álbuns e publicar seus pensamentos para todo mundo – o que de fato é feito por quantidade de pessoas surpreendentemente grande. O talento não é universal, mas é muito difuso: dê a uma quantidade bastante grande de pessoas a capacidade de criar e daí sem dúvida surgirão obras de valor.” (ANDERSON 2006) Os efeitos desse fenômeno estão sendo sentidos em toda a indústria da comunicação. O autor Doc Searls chama esse fenômeno de mudança do consumismo para o producismo participativo: A “economia do consumo” é um sistema controlado pelos produtores, no qual os consumidores não são nada mais do que fontes de energia que metabolizam produtos em dinheiro. Esse é o resultado absolutamente corrompido do poder absoluto dos produtores sobre os consumidores, desde que os produtores ganharam a Revolução Industrial. A Apple está oferecendo aos consumidores ferramentas que os convertem em produtores. Essa prática transforma radicalmente tanto o mercado quanto a economia que nele floresce.” (SEARLS, Doc. Apud ANDERSON, 2006, p. 61).
  6. Diante desta nova realidade, o profissional da comunicação, o conhecido

    emissor no processo da linearidade comunicacional, precisa se adaptar às novas formas de discurso midiático e a esse novo consumidor que surge. O comunicador assume novas funções, novo papel, nova identidade neste re-arranjo da sociedade. Entramos na era da convergência das mídias, onde o comunicador atua como agente mobilizador, munido de novos suportes e responsável por novas relações e novas experiências comunicacionais. Sociedade Convergente Conforme visto anteriormente, o mundo sofreu uma mudança de paradigma no modo como de se consumir mídias. Quase todas as antigas formas de consumo e produção midiáticas estão evoluindo a passos largos. Isso implica em mudanças na forma com que a audiência interage com o conteúdo, criando novos níveis de participação e aumentando os laços deste público com este conteúdo. Muda a forma com que a indústria lida com os direitos autorais. Muda o modelo de negócios vigente hoje nessas indústrias. Muda a forma com que os anunciantes abordam os consumidores, tendo esses que criar soluções narrativas que estimulem esse novo consumidor. Muda a forma com que nos comunicamos uns com os outros através das redes sociais e muda também a forma que pensamos os projetos editoriais em seus mais diversos suportes e mídias. Henry Jenkins, co-diretor do Comparative Studies Media Program do MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e autor do livro “A cultura da Convergência” atribui essas mudanças a três fenômenos atuais: A Convergência dos meios de comunicação, a cultura participativa e a inteligência participativa. Ele diz: ”Por convergência refiro-me ao fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca de experiências de entretenimento que desejam.” (JENKINS, 2008) O fenômeno da convergência não deve ser entendido como um simples processo tecnológico que une múltiplas funções dentro de aparelhos eletrônicos e sim como uma transformação cultural. Jenkins acrescenta: “A convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais
  7. sofisticados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos

    cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com os outros.” Lúcia Santaella, Diretora do CIMID, Centro de Investigação em Mídias Digitais, atesta que: ”não devemos cair no equívoco de julgar que as transformações culturais são devidas apenas ao advento de novas tecnologias e novos meios de comunicação e cultura. São, isto sim, os tipos de signos que circulam nesses meios, os tipos de mensagens e processos de comunicação que neles se engendram os verdadeiros responsáveis não só por moldar o pensamento e a sensibilidade dos seres humanos, mas também por propiciar o surgimento de novos ambientes socioculturais.” (SANTAELLA, 2003) O fenômeno da cultura participativa se difere do conceito da passividade dos consumidores que ficavam só de um lado ouvindo os produtores e consumidores de mídia. Agora, eles participam interagindo com um novo conjunto de regras. E há consumidores que têm mais habilidade para participar dessa cultura que os outros. Jenkins define cultura participativa como a que não possui barreiras para livre expressão artística ou engajamento cívico, um ambiente onde se é encorajado e não se tem receio de compartilhar suas criações ou as de outros com terceiros. Os resultados mostram uma maior democratização do consumo. Mas alem de misturar os papéis do produtor e do consumidor no contexto da produção, a grande importância da cultura participativa é que depois de ter sido dominado por toda a sua existência, o mercado de bens de consumo passa a ser agora “um mercado de duas mãos” (ANDERSON, 2006, p. 82) O fenômeno da inteligência participativa é abordado por Pierre Levy. Para ele, hoje há uma inteligência coletiva, resultando de comportamentos de “co-laboração”: cada um constrói seu próprio conceito, a partir de “pedaços e fragmentos de informações extraídos do fluxo midiático” e transformados na vida cotidiana do indivíduo. “Por haver mais informações sobre determinado assunto do que alguém possa guardar na sua cabeça, há um incentivo extra para que conversemos entre nós sobre a mídia que consumimos.” O que consumimos torna-se o processo coletivo. “Nenhum de nós pode saber tudo, cada um de nós sabe alguma coisa; e podemos juntar as peças,
  8. se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades.” (LEVY, 1993)

    Na chamada “inteligência coletiva”, cada um constrói seu próprio conceito, a partir de “(…) pedaços e fragmentos de informações extraídas do fluxo midiático (…)” e transformados na vida cotidiana do indivíduo. “Por haver mais informações sobre determinado assunto do que alguém possa guardar na sua cabeça, há um incentivo extra para que conversemos entre nós sobre a mídia que consumimos.” O que consumimos torna-se o processo coletivo. “Nenhum de nós pode saber tudo, cada um de nós sabe alguma coisa; e podemos juntar as peças, se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades (...) a inteligência coletiva pode ser vista como uma fonte alternativa de poder midiático”. afirma Jenkins Castells, em seu livro, “A Sociedade em Rede”, também busca esclarecer a dinâmica econômica e social da nova era da informação. Baseado em pesquisas feitas nos Estados Unidos, Ásia, América Latina e Europa, procura formular uma teoria que dê conta dos efeitos fundamentais da tecnologia da informação no mundo contemporâneo. A sociedade em rede, baseada no paradigma econômico-tecnológico da informação, se traduz não apenas nas novas práticas sociais, como também nas alterações da própria vivência do espaço e do tempo como parâmetros da experiência social. Castells nos adverte, mais especificamente, que “é preciso levar a sério as mudanças introduzidas em nosso padrão de sociabilidade em razão das transformações tecnológicas e econômicas que fazem com que a relação dos indivíduos e da própria sociedade com o processo de inovação técnica tenha sofrido alterações consideráveis”. (CASTELLS, 2000) Ainda, segundo o autor, as novas tecnologias da informação, com o espetacular desenvolvimento da codificação, da capacidade de armazenamento e os desenhos de arquitetura dos microprocessadores, permitiu estender seu uso a segmentar menos qualificados do mercado de trabalho. A fábrica rompe suas fronteiras e se difunde na sociedade. Mediante redes terminais, os domicílios podem se constituir em espaços de trabalho adequados e articulados com a produção. Os computadores pessoais e a popularização dos softwares definem novos parâmetros pelos quais se exerce liderança tecnológica, poder e hegemonia.
  9. A qualidade e a quantidade de informações que hoje circulam

    na internet são o melhor exemplo da dependência da sociedade contemporânea aos detentores de sistemas de informação e redes de conexão. Surge então o desafio de se criar produtos cada vez mais coerentes com essa sociedade contemporânea. Muitos hoje me dia pregam a visão apocalíptica do fim do impresso, assim como, a TV acabaria com o rádio ou mais recentemente, nos anos 80 ,o vídeo cassete seria o algoz do cinema. A convergência veio para mostrar que nenhuma mídia precisa morrer, nenhum suporte precisa encerrar suas funções. Basta que haja um esforço em se adaptar aos novos tempos. Hipertexto, Intertexto e Literatura Junto com a popularização dos computadores e o surgimento das mídias convergentes, uma nova forma de textualidade começou a ser mais presente na vida das pessoas. Nos deparamos com um novo modelo de escrita e leitura que condiz perfeitamente com esse novo consumidor que surge, que precisa cada vez mais expressar seu pensamento com maior flexibilidade, rapidez e eficiência do que estava habituado até então, o hipertexto em meio eletrônico. O hipertexto surge como uma possibilidade diferente de expressão, um novo suporte para a escrita que dispensa a mediação do papel, caracterizando outra tendência de veiculação de informações. Mas o hipertexto não é exatamente uma técnica inédita. Ele é resultado da mistura de várias outras e precede existência dos computadores e da internet. A escrita multidimensional, formada por vários percursos narrativos, já vinha sendo utilizado por muitos escritores. Obras como os contos de Borges, Dom Quixote de Cervantes, O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar, As cidades invisíveis de Halo Calvino, O Delfim, José Cardoso Pires, e tantas outras já se esforçavam em subverter a ordem e dar uma nova perspectiva a suas narrativas onde o texto é visto como uma confluência de memórias e de outros textos, organizados e reescritos. Chama-se a esse fenômeno Intertextualidade que é, entre outros aspectos, a soma e a confluência de outros textos, de maneira integrada, interdependente e complementar, dando origem, assim, a um novo texto. Um exemplo recente do uso desses recursos em um romance de ficção é do livro House of Leaves do autor americano Mark Z. Danieleswski, sem tradução para o português. O formato e estrutura deste romance não é nada convencionais, com estilos de páginas e diagramação pouco comuns, no que podemos chamar
  10. de uma escrita visual. O livro contém várias notas de

    rodapé que fazem referências a outros conteúdos existentes e também a livros que sequer existem de verdade. Algumas páginas contém apenas algumas palavras, ou poucas frases escritas, dispostas de formas estranhas na página, segundo o autor, na intenção de criar sensações nos leitores que vão de agorafobia a claustrofobia. A narrativa também se distingue por possuir vários narradores, que interagem uns com os outros pela trama, de forma desordenada e bastante elaborada. A intertextualidade, quase sempre, só permite uma leitura conduzida e linear, diferente do hipertexto que aceita ordenações pouco usuais para os retalhos que o constituem. O hipertexto como o criador do termo Ted Nelson teoriza, constitui “(…) uma forma de escrita não seqüencial – um texto que se espalha em ramificações e permite ao leitor escolher caminhos, [e deve ser] preferencialmente lido em uma tela interativa.” (Nelson 1992) Ainda sobre hipertexto, Pierre Lévy nos diz: "Tecnicamente, um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular." (LÉVY, 2003) Analisando a dinâmica de funcionamento do hipertexto eletrônico e observando suas características básicas — não linearidade, intertextualidade, interdisciplinaridade, interatividade, utilização dos recursos multimídia, as possibilidades de o leitor ser co-autor e a produção de conhecimento como resultado do esforço de uma coletividade pensante — podemos afirmar que o hipertexto é um conceito amplo que pode ser aplicado em outros suportes a fim de enriquecer a narrativa. Uma escrita hipertextual pode contribuir para melhorar a compreensão do texto de um romance, mas pode também, pela falta de linearidade Página do livro House of Leaves do autor Mark Z. Danieleswski.
  11. (direcionamento da leitura), desorientar o leitor, que talvez não consiga

    agregar sentido no que está lendo. Podemos assim dizer que o hipertexto é uma prática literária já existente no passado, também conhecida como intertexto, e que agora, com a evolução das tecnologias e do pensamento do público, que aceita e até demanda por narrativas mais complexas e convergentes, que seu potencial pleno de realização vem sendo alcançado devido aos experimentos de alguns autores de vanguarda. Narrativas Interativas Sabemos que a posição do leitor/espectador/ouvinte diante de uma história não é, em absoluto, passiva como afirma Janet Murray: “(...) nós construímos narrativas alternativas enquanto avançamos, escalamos atores ou pessoas que conhecemos nos papéis dos personagens, representamos as vozes dos personagens em nossas mentes, ajustamos a ênfase da história para que se encaixe aos nossos interesses e montamos a história dentro do esquema cognitivo composto por nossos próprios sistemas de conhecimento e crença.” (MURRAY, 2000) É neste cenário que se propõe uma nova proposta para os projetos editoriais com o objetivo de testar, experimentar e praticar a atividade de contar histórias através dos recursos oferecidos pelos mais diversos meios existentes hoje. Livros que extrapolem o meio impresso e traga ao leitor mais do que uma história com início, meio e fim, mas uma narrativa envolvente e principalmente interativa. O termo 'Narrativa Interativa' cobre vários meios como a literatura, videogames, livros e filmes. A primeira coisa que deve ser esclarecida é que as Narrativas Interativas nada tem a ver com a chamada Realidade Virtual. Esta é apenas uma tentativa de imergir a audiência em uma historia. Narrativas Interativas é um estilo de narrativa que dá a audiência a possibilidade de influenciar o curso dos eventos da historia que esta sendo contada. Permite expandir aquele universo, extrapolando as páginas do livro e o texto escrito e se utilizando de recursos visuais diversos para alterar a história, ou a forma como ela é contada. Em outra perspectiva, uma Narrativa Interativa seria uma história que dá aos leitores a oportunidade de seguir diversos
  12. caminhos, explorando a fundo detalhes específicos da trama, e avançando

    na história no tempo que julgar necessário. Esse método de "escolha de eventos" é freqüentemente utilizado em filmes interativos, principalmente em jogos de videogame, oferecendo ao público um universo de opções que desencadeiam novos eventos dependendo das escolhas feitas. Dificulta bastante o trabalho dos autores, que devem criar muito mais conteúdo do que o normal, correndo o risco de que apenas uma parte desse conteúdo seja de fato visto pela maioria dos leitores. Talvez por isso, existam tão poucos projetos editoriais que contemplem e explorem a fundo esse estilo narrativo. Nesse quesito, o livro Cabeça Tubarão (The Raw Shark Text, de Steven Hall) é um ótimo exemplo de como um romance pode lançar mão de vários recursos narrativos e de linguagem para se criar um universo amplo e quase colaborativo, levando o leitor a explorar a história alem do suporte impresso, dando a sensação ao leitor de que ele não é um agente meramente passivo, mas exige-se dele uma postura ativa e atuante dentro do enredo. Ele passa a ser uma espécie de co-autor da história, e seu papel passa a ser determinante para que o resultado final da trama seja o mais próximo daquele esperado pelo autor, mesmo que numa análise mais profunda essa influência do leitor na história respeite certos limites impostos previamente pelo autor. Sobre esta questão, Alex Primo nos alerta: “No hipertexto interativo e de estrutura não-linear o usuário transforma-se em autor. A partir dessa perspectiva, preocupada com a relação entre os interagentes, questões como interatividade, bidirecionalidade, usuário, não-linearidade e autoria compartilhada são revistas e desafiadas.” (PRIMO, 2003) Ted Nelson argumentava que os leitores não deveriam ser desencorajados pela estrutura do assunto ou pela estrutura do conhecimento do autor na construção do significado informativo. A estrutura do conhecimento de cada indivíduo é relativa, e cada um deveria estruturar a informação de maneira que lhe faça sentido. O usuário entra em um sistema de co-autoria do material que é exposto a ele. Ainda que ele não tenha o controle do conteúdo interno, a maneira com que é definida a sequência dos tópicos, interligando um conteúdo a outro em diferentes ordens, define e, por vezes, altera o próprio contexto.
  13. Metodologia Para entender melhor como todas essas mudanças sociais e

    avanços tecnológicos tem influenciado a produção editorial dos romances ficcionais foi escolhido como objeto de análise o Livro “Cabeça Tubarão” do autor Steven Hall lançado no Brasil em 2007 pela Companhia das Letras e com tradução de Vanessa Bárbara. O estudo de caso explanatório parece ser a metodologia mais indicada para esta analise por se tratar de uma pesquisa documental, onde a busca de dados relevantes e convenientes são obtidos através da experiência e da vivência do pesquisador. De acordo com o autor Robert K. Yin, o objetivo do estudo de caso é compreender o evento em estudo e ao mesmo tempo desenvolver teorias mais genéricas a respeito do fenômeno observado. YIN (1989, p. 23) afirma que "o estudo de caso é uma inquirição empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real, quando a fronteira entre o fenômeno e o contexto não é claramente evidente e onde múltiplas fontes de evidência são utilizadas". Assim, objetiva relatar os fatos como sucederam, descrever situações ou fatos, proporcionar conhecimento acerca do fenômeno estudado e comprovar ou contrastar efeitos e relações presentes no caso. Em síntese, o objetivo do estudo de caso é explorar, descrever, explicar, avaliar e/ou transformar. Assim, foi feita pelo pesquisador, a leitura do objeto de estudo com maior atenção aos aspectos intertextuais existentes no texto. Foi feita também uma larga pesquisa na internet na busca das pistas deixadas pelo autor através de vídeos, imagens e textos complementares. Foi pesquisado fóruns de discussão (principalmente o www.forums.steven-hall.org/) na busca por dados e informações sobre as impressões dos leitores aos tópicos abordados no livro. Foi do interesse da analise também a busca por informações sobre as várias referências culturais existentes na narrativa (filmes, personalidades, locais) como forma de entender melhor a proposta de imersão criada pelo autor do livro. Entrevistas com o autor bem como resenhas do livro também foram pesquisadas.
  14. Análise “Cabeça Tubarão” No livro “Cabeça Tubarão”, de Steven Hall

    (The Raw Shark Texts, 2007), o autor cria um universo riquíssimo em detalhes, extremamente instigante e cheio brincadeiras estruturais que se utiliza de imagens e tipografia como partes essenciais da trama, estimulando o leitor a buscar por mais dados e informações complementares num esforço de crossmedia que envolve os mais diversos suportes e linguagens. O próprio nome do livro, em inglês, The Raw Shark Texts, já é um pequeno enigma com o termo "Rorschach Tests" (o teste psicológico de Rorschach) e já dá ao leitor, pistas do que está por vir. Steven Hall é um autor jovem e cresceu em meio aos avanços tecnológicos e certamente é bastante familiar à internet e a conceitos como o de hipertexto. Esta vivência com os meios digitais influenciaram a forma com que ele estruturou sua narrativa dentro do suporte impresso e fora dele. Ler uma narrativa no meio impresso tradicional significa, via de regra, aceitar que o tempo narrativo é mais importante que o espaço e mais ou menos hierarquizada: inicia-se a leitura na primeira página e conclui-se na página final, ou seja, efetua-se a leitura na seqüência de começo, meio e fim, pré-estabelecida pelo autor. Nessa leitura, além disso, encontra-se normalmente apenas um enredo dominante, ao qual pode subordinar-se um número variável de enredos mais ou menos periféricos. Já no primeiro capitulo do livro, é possível ver claramente a ruptura desse sistema e do tempo narrativo, onde vemos momentos do presente e do futuro do personagem principal alternando a cada parágrafo, exigindo do leitor uma atenção redobrada para entender o que se passa. Vemos aqui o início de uma rede de informações que precisam antes de tudo, ser interligadas pelo leitor para compreensão da história. Como já foi dito neste artigo, o hipertexto não é feito para ser lido do começo ao fim, mas sim através de buscas, descobertas e escolhas. As opções de caminhos a se seguir no livro são diversas e segui-las é de inteira responsabilidade do leitor. O autor criou um universo riquíssimo em detalhes e cheio de possibilidades. Nele, um sujeito acorda do que parece ser um ataque, sozinho, numa casa desconhecida (numa referência clara ao personagem do cinema Jason Bourne, a primeira de muitas referências a filmes e ícones da cultura pop que o livro faz). Ele não se lembra de coisa alguma, nem seu próprio rosto ele conhece. Sua confusão diante do mundo desconhecido que o cerca é também compartilhada pelo leitor que logo se vê confuso com a narrativa de estrutura estranha, mas com rápida
  15. curva de aprendizagem. A confusão do texto logo deixa de

    ser um problema e passa a instigar a leitura. Felizmente, há uma carta sobre a mesa. "Antes de mais nada, fique calmo". O remetente? Ele mesmo. E não demora para que Eric se veja envolvido numa luta pela sobrevivência de sua própria mente e nós leitores somos fundamentais nessa busca. Há mensagens cifradas, flipbook, trechos de enciclopédias, fotos e vai além da limitação do suporte papel, expandindo a experiência do romance convergindo para outros meios digitais quase sempre com o auxílio da internet. Quando sai do suporte impresso, a trama se complementa através de jogos, vídeos, charadas, pistas deixadas propositalmente na rede a espera de que seus leitores as encontrem, alem de referencias e dados que, de acordo com o interesse do leitor, podem ser pesquisados e apurados voluntariamente como forma de se aprofundar em alguns dos tópicos abordados pela trama transformando-a em um projeto hipermidiático. Na hipermídia temos a hibridização de linguagens, processos sígnicos, códigos e mídias, por meio da mistura de sentidos que é capaz de produzir na mesma medida em que o receptor interage com ela. Para Santaella, o leitor imersivo seria característico desse espaço em que navega por dados informacionais híbridos próprios da hipermídia. “Os nós são as unidades básicas de informação em um hipertexto. Nós de informação, também chamados de molduras, consistem em geral daquilo que cabe em uma tela. Cada vez menos os hiperdocumentos estão constituídos apenas de texto verbal, mas estão integrados em tecnologias que são capazes de produzir e disponibilizar som, fala, ruídos, gráficos, desenhos, fotos, vídeos, etc. Essas informações multimídia também constituem os nós. [...] Um nó pode ser um capítulo, uma seção, uma tabela, uma nota de rodapé, uma coreografia imagética, um vídeo, ou qualquer outra subestrutura do documento. É muito justamente a combinação de hipertexto com multimídias, multilinguagens, chamando-se de hipermídia.” (SANTAELLA, 2004, p.49). Cabeça Tubarão conta basicamente uma história sobre perdas, o sentimento de incompletude e quebra-cabeças abertos, e por isso, o autor decidiu que não haveria uma versão definitiva do
  16. livro. A versão australiana do livro, por exemplo, é ligeiramente

    diferente da canadense, que se difere da francesa e assim por diante. Algumas versões do livro possuem páginas extras e capítulos adicionais, outras possuem páginas coloridas. A versão analisada neste artigo é a tradução brasileira, feita por Vanessa Barbara e lançada em 2007 pela editora Companhia das Letras. Esta edição do livro conta com “Negativo 8” como trecho inédito e exclusivo para a versão brasileira. Em entrevista ao site “abc.net.au”, em 23 de junho de 2007, Hall revela: “Trechos extras do livro, estão disponíveis online, perdidos ou escondidos em diversos sites. O livro possui 36 capítulos, e eventualmente, terá 36 capítulos extras que são parte da história, mas existem além do suporte impresso, escondido em sites ou até mesmo, segundo o autor, circulando no mundo real. Existe um capitulo extra de Cabeça Tubarão até mesmo na parte de trás do meu cartão de visitas. Você pode encontrar material também no mundo real, em locais citados no livro.” Um exemplo de um desses textos complementares disponibilizados aos leitores pela internet e também impresso é o “Negativo 1”, que faz parte da edição canadense do livro. No capitulo 7 do livro, uma compilação de cartas recebidas pelo personagem principal, um texto é mencionado, o “Fragmento do Aquário” 1. Em seguida, é dado ao leitor apenas um pedaço deste texto para ser lido. O texto completo pode ser encontrado no Negativo 1, que foi divulgado ao público através do fórum de discussões do autor em 07 de setembro de 2007. A imagem abaixo mostra a versão impressa do trecho secreto. 1 Pág. 96 “Houve uma vez um texto chamado O Fragmento do Aquário, do qual restou um único trecho (...) o fim da história. Como sempre, algumas partes e sentidos estão faltando”
  17. “Negative 1” é o prólogo para do livro Cabeça Tubarão.

    Entre as páginas 21 - 26, encontra-se o texto completo do “Fragmento do Aquário” que é mencionado no capitulo 7 do livro, e no trecho exclusivo da edição canadense. Este fragmento foi disponibilizado pelo site canadense do livro (http://www.rawshark.ca/), no fórum de discussões oficial da obra (http://steven- hall.org/) e em uma edição impressa limitada (imagem). Mesmo com todas essas possibilidades extras, não significa que, para ler o livro, o leitor deva necessariamente parir em uma verdadeira caça ao tesouro para compreender a história. Se o leitor quiser ir atrás de material extra, ele irá encontrar novas perspectivas e formas de entender a narrativa e seus personagens. Caso prefira, ele pode se limitar ao livro físico, e ainda assim terá uma experiência narrativa interessante e pouco convencional proporcionada pelos elementos gráficos, referencias e pela estrutura de rede intertextual presente no texto de Hall. Dessa forma, o livro permite que o leitor explore apenas um ou vários módulos de informação presentes. Segundo Ted Nelson, isso permite aos leitores analisar o conteúdo de diferentes pontos de vista e diferentes níveis de profundidade até encontrarem a perspectiva que desejam. É também uma maneira de não se precisar escrever para um tipo específico de leitor, mas escrever e separar diferentes níveis de profundidade relacionados ao assunto. Com isso, o leitor se aprofunda na medida desejada no conteúdo de seu interesse. Esse tipo de projeto logo se mostra muito mais trabalhoso de se fazer do que um livro tradicional. O papel do autor não termina quando o livro é entregue ao editor. Steven Hall teve que escrever e projetar muito mais do o livro que foi vendido nas prateleiras das livrarias e certamente nem todo esse material foi ou será contemplado por todos os leitores. Isso nos mostra que, o papel do autor numa obra dessa natureza é bastante importante para conduzir aqueles leitores que querem se aprofundar mais na rede de informações criada para a narrativa. Ciente disso, Hall passou a deixar pistas em fóruns de discussões e até criou uma espécie de persona sob o codinome “CpVb006” para se comunicar com os demais leitores em busca de dados. Em 15 de agosto de 2007, pouco tempo depois de ter lançado o livro em sua versão em inglês, ele deixou a seguinte mensagem (sem tradução para o português) em seu site, informando os leitores da existência dos textos secretos:
  18. “Hello. For each chapter in The Raw Shark Texts there

    is, or will be, an un-chapter, a negative. If you look carefully at the novel you might be able to figure out why these un-chapters called negatives. Not all the negatives are as long as a full novel chapter - some are only a page, some are only a couple of lines. Some are much longer than any chapters in the novel. About a quarter of them are out there so far. (It’s an ongoing project set to run for a while yet) Not all of the negatives are online, some are, but they're hiding. Some are out there in the real world, waiting to be found. Anyone with the Raw Shark UK special edition will already have Negative 6/36 and anyone with a Canadian edition will have Negative 36/36 (and also a good idea of what some of the other negatives are). The negatives are not deleted scenes, they are very much a part of the novel but they are all splintered from it in some way. There's also sticky negative discussion thread for folks to chat and post their findings. Happy hunting. Steven H 15/08/07” Nesta mensagem, Hall explica aos leitores a existência dos “Negativos”, que como dito anteriormente, são capítulos extras, que complementam a história do livro e dá dicas de como encontrá-los, instigando assim, a busca por eles. Já sob o codinome “CpVb006”, Hall assume outro papel. Ele age como um informante secreto que está ali para ajudar. Suas manifestações ocorrem geralmente no fórum do autor (fórum.steven-hall.org/) e são quase sempre acompanhadas de alguma dica ou link que leva o leitor diretamente a algum dado ou informação relevante para a história como no exemplo na página seguinte, extraído do fórum:
  19. Durante toda a história, o personagem principal, Eric, recebe correspondências,

    enviadas por ele mesmo, no passado com várias informações sobre sua história e com instruções para o Eric do presente desvendar os mistérios da trama. É através da leitura dessas cartas que boa parte da narrativa se desenvolve. Muitas dessas cartas contém enigmas, imagens ou quebra- cabeças para serem desvendados pelo leitor. Um exemplo de como o livro converge sua trama para a internet está na leitura da “Carta nº 111” presente na página 90 do livro. Nela somos apresentados a um enigma cujo resultado elucidará mais uma parte da história. O quebra cabeça, intitulado “O fragmento da lâmpada” envolve decifrar um código Morse escondido num vídeo2. Apesar de o livro trazer todas as pistas necessárias para a solução do enigma, o tal vídeo, pode ser encontrado no canal do Youtube da versão do passado do personagem principal FirstEricSanderson. Fica clara a intenção do autor de fazer com que o leitor assuma o papel do personagem principal, interagindo e vivenciando ao máximo, os acontecimentos da trama. “Há mais a traduzir e essa tarefa cabe a você” diz o personagem “Eric Sanderson Número Um” em uma das cartas presentes no livro. 2 pág. 87 “A lâmpada foi cuidadosamente adaptada para piscar um texto criptografado em Morse e QWERTY, (...) contendo um fragmento da sua história. (...) Há mais a traduzir e essa tarefa cabe a você. A fita de vídeo reproduz o ciclo completo de piscadas da lâmpada para propósitos de decodificação, em caso de emergência.” Na imagem, vemos o autor informando aos leitores o descobrimento de mais um texto escondido, o “Negative 6”, divulgando links para acesso e informando que, o mesmo texto pode ser encontrado impresso na edição limitada do livro, lançada no Reino Unido.
  20. Imagens capturadas no calal do Youtube, supostamente criada pelo personagem

    do livro e que ajudam a solucionar um dos enigmas da trama do qual os leitores se deparam em um dos capítulos do livro. Durante todo o livro, o leitor é desafiado com as várias brincadeiras estruturais utilizadas pelo autor para demonstrar a confusão mental vivida por Eric. O grande inimigo do personagem na trama é um tubarão conceitual, formado por letras, que persegue Eric na tentativa de devorar literalmente sua mente. Essa suposta criatura imaginária devoradora de memórias é conhecida como Ludovício. Toda vez que Eric se depara com o Ludovício, o autor o demonstra através do uso de imagens tipográficas, sempre na tentativa de capturar as sensações e vislumbres do personagem3. 3 pág. 74 “Com o impacto, as noções de chão e de tapete, o conceito, o sentido e a forma das palavras se desintegraram em minha mente em um banho de sensações, texturas e arquétipos, de letras e sons (...).
  21. As imagens acima demonstram um dos ataques do Ludivício presente

    no livro onde o autor se utiliza do recurso do flipbook para descrever a aproximação da criatura. Aqui, mais alguns exemplos dos recursos visuais tipograficos utilizados pelo autor para demonstrar as visões do personagem principal. Em algumas partes, essas brincadeiras estruturais surgem como quebra cabeças, ou desafios encontrados pelo personagem e quase sempre podem ser investigados pelos leitores que quiserem decifrar os significados por treas das imagens como é o caso do “Fragmento da Lâmpada” citado anteriormente. Ná página seguinte, mais alguns exemplos desses momentos:
  22. Em outros momentos, o autor usa fotos reais ou imagens

    que simulam objetos encontrados pelos personagens como postais e jornais. As imagens abaixo exemplificam esse momentos: Um fato que deve ser levado em conta num projeto desse porte é que, todo o material extra encontrado na web, que serve de complemento à história narrada no livro, encontra-se em inglês. Até mesmo no livro, alguns enigmas se mostram intraduzíveis, mas facilmente resolvidos através das “N/T” (Notas da Tradução) no rodapé das páginas. Ainda assim, isso se mostra um impecilho para leitores que não tenham o domínio da língua inglesa e queiram aproveitar tudo o que o livro tem a oferecer. A localização de todo esse material extra para outras línguas, tornaria os custos do projeto ainda mais caros e muitas vezes impraticáveis para algumas editoras. Ainda assim, Cabeça Tubarão se mostra de fato uma obra única e um ótimo exemplo de como as novas teclologias e as transformações ocorridas nos meios de comunicação, tem
  23. influênciado as pessoas e, principalmente, os produtores de conteúdo. Steven

    Hall é um autor jovem, contemporâneo a essas mudanças, e isso certamente foi fundamental na concepção do livro. Todos os elementos característicos da linguagem hipertextual, como a não-linearidade e a estrutura informacional em redes está presente o tempo todo na obra de Hall. Acompanhamos momentos distintos da história fora da ordem dos acontecimentos; o tempo todo o leitor é levado a fazer links entre a narrativa e imagens ou cartas; referências a outras obras, geram a curiosidade e instigam o leitor a buscas por mais dados em outras fontes. Mas é na internet que o livro realmente se completa e assume ser de fato, fruto da pós-modernidade. Os capítulos adicionais encontrados na web, prolongam a experiência do leitor que fica o tempo todo em busca de mais informações para complementar a história. Apesar de ter sido lançado em 2007, os fórums de discussão sobre o livro ainda contam com a participação ativa de novos e antigos leitores que estão em busca de mais dados ou, simplesmente, para discutir teorias e partes específicas do livro. O canal no Youtube, traz vídeos instigantes que quando não ajudam a desvendar mistérios do livro, servem para dar mais veracidade a fatos narrados na história. A imersão proporcionada por esses recursos é satisfatória e faz com que o leitor se sinta mais parte da narrativa e essencial para o desenvolvimento da trama. Tudo isso para levar ao leitor uma experiência inédita e interativa. Para SILVA (1998), a interatividade está na “disposição ou predisposição para mais interação, para uma hiper- interação, para bi-direcionalidade - fusão emissão-recepção -, para participação e intervenção”. Portanto, não é apenas um ato de troca, nem se limita à interação digital. Pensar o uso de recurso interativos no projeto editorial, é proporcionar a abertura para mais comunicação, mais trocas e mais participação, e isso o livro de Eteven Hall entrega com folga para o leitor que estiver disposto. E é esse tipo de projeto inovador, que dá a chance ao consumidor atuar ativamente no projeto, que deve ser almejado pelos novos produtores editoriais, sejam eles autores ou distribuidores (editoras).
  24. Conclusão Um dos principais autores que discute a função do

    livro como objeto, Roger Chartier, diz que "O livro sempre visou instaurar uma ordem; fosse a ordem de sua decifração, a ordem no interior da qual ele deve ser compreendido, ou, ainda, a ordem desejada pela autoridade que o encomendou ou permitiu sua publicação." (Chartier, 1999). No entanto, ele continua, a ordem do livro é constantemente desafiada pela liberdade da leitura. O hipertexto, que em síntese pode ser entendido como um texto construído em blocos ou partes e que se linkam através de uma rede de conexões, trouxe ao público a possibilidade de se ter efetivamente, essa liberdade. Estamos habituados então a obter a informação da forma que melhor nos convém. Sem ordem, sem linearidade, sem regras. Essa liberdade nos levou a um novo tipo de consumidor, mais ativo. Os avanços tecnológicos e o maior acesso aos meios de produção transformaram esse consumidor pró-ativo em produtor. Inverte-se os papéis dentro da sociedade de consumo e novas demandas aparecem. Pra os autores de livros e editoras, o desafio agora é o de transformar um suporte impresso, linear, rígido na sua estrutura, em suporte aberto e interativo, considerando os conceitos que já foram discutidos neste contexto. Livros que consigam transmitir seu conteúdo de forma interativa, aproveitando as possibilidades do potencial e das especificidades que o suporte eletrônico pode oferecer.
  25. BIBLIOGRAFIA ANDERSON, Chris. A cauda longa: Do mercado de massa

    para o mercado de nicho. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. ANDERSON, Chris. Os novos Produtores. Em: A cauda longa, a nova dinâmica de marketing e vendas: como lucrar com a fragmentação dos mercados. Trad. Afonso Celso da Cunha Serra. - Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. p. 56-82 LÉVY, Pierre – As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993, p.33. PRIMO, Alex. Quão interativo é o hipertexto? : Da interface potencial à escrita coletiva. Fronteiras: Estudos Midiáticos, São Leopoldo, v. 5, n. 2, p. 125-142, 2003 CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Rio de Janeiro:Paz e Terra,2000 JENKINS, Henry. Cultura da Convergência/Henry Jenkins; tradução Susana Alexandria. – São Paulo: Aleph, 2008 MURRAY, Janet H. Hamlet on the Holodeck: The future of narrative in cyberspace. New York, The Free Press, 1997. p. 110 SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004. SANTAELLA, Lúcia. Da cultura das mídias à cibercultura: o advento do pós-humano Revista FAMECOS - Porto Alegre, nº 22 - dezembro 2003. YIN, Robert K. - Case Study Research - Design and Methods. Sage Publications Inc., USA, 1989. Trad. Prof. Ricardo Lopes Pinto. Em: http://www.focca.com.br/cac/textocac/Estudo_Caso.htm capturado em 30/11/2009 SILVA, Marco. Um convite à interatividade e à complexidade: novas perspectivas comunicacionais para a sala de aula. In: GONÇALVES, Maria Alice Rezende (org.). Educação e cultura: pensando em cidadania. Rio de Janeiro : Quartet, 1999. p. 135-167. CHARTIER, Roger. A Ordem dos Livros. Tradução Mary Del Priori. Brasília: Editora da UnB, 1999. NELSON, Theodor H. Opening Hypertext: a Memoir. In Tuman, Myron C. , ed. Literacy Online: The Promise (and Peril) of Reading and Writing with Computers. Pittsburgh e Londres: The University of Pittsburgh Press, 1992. Sites http://www.focca.com.br/cac/textocac/Estudo_Caso.htm Steven-Hall.org -The Official Steven Hall Forum, discuss the author's works including the Raw Shark Texts. Wikipedia.com