filosofia que tem por objetivo o estudo dos fundamentos da arte. A teoria estética estuda o julgamento e a percepção do que é considerado belo, a produção das emoções pelos fenômenos estéticos e as diferentes formas de arte e técnica artística. Por outro lado, a estética também pode ocupar-se do sublime, ou da privação da beleza, ou seja, o que pode ser considerado feio, ou até mesmo ridículo. OBJETIVOS E LIMITES O objetivo desta aula é analisar as relações estéticas que podem ser compreendidas a partir dos filmes do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. A ideia é compreender como o sistema de códigos e símbolos construídos no universo do diretor pode constituir uma estética ao mesmo tempo própria e sintomática de um determinado Período histórico-cultural.
espanhola está no limiar do esgotamento de uma tradição. Suas narrativas são inspiradas pelo movimento contracultural dos anos 1970 chamado Movida Madrileña, cultuado pela cultura jovem marginal. O movimento ocorre na passagem da ditadura franquista para uma nova sociedade democrata. Nesse período, a noite de Madri costumava ser muito ativa, não apenas pela presença de jovens – que passaram a ocupar as ruas sem medo de repressões –, mas também pelo interesse incomum da população juvenil por culturas alternativas ou subterrâneas (underground). A imagem de uma Espanha moderna seria utilizada internacionalmente para combater a imagem negativa que o país havia adquirido. A contracultura pode ser definida como um movimento que questiona valores centrais vigentes em uma sociedade. Geralmente é composto por pessoas socialmente excluídas e que se negam a aceitar visões aceitas pelo mundo. Com o desenvolvimento das mídias, a difusão de normas, valores, gostos e padrões de comportamento se libertavam das amarras tradicionais e locais – como a religiosa e a familiar –, ganhando uma dimensão universal e aproximando a juventude do mundo globalizado.
referir ao conjunto de movimentos de rebelião da juventude que marcaram os anos 60. De outro lado, o mesmo termo pode também se referir a alguma coisa mais geral, mais abstrata, um certo espírito, um certo modo de contestação, de enfrentamento diante da ordem vigente, de caráter profundamente radical e bastante estranho às forças mais tradicionais de oposição a esta mesma ordem dominante.” “Um tipo de crítica anárquica – esta parece ser a palavra-chave – que, de certa maneira, 'rompe com as regras do jogo' em termos de modo de se fazer oposição a uma determinada situação. Uma contracultura, entendida assim, reaparece de tempos em tempos, em diferentes épocas e situações, e costuma ter um papel fortemente revigorador da crítica social.” PEREIRA, Carlos Alberto. O que é contracultura. São Paulo: Braziliense, 1992.
gêneros. Podemos identificar essa transição inclusive em seus filmes que tentem ao gênero dramático e, eventualmente, apresentam elementos de comédia e de deboche. Esses elementos estão diretamente relacionados com as experiências de cultura underground espanhola dos anos 1980, vividas pelo diretor.
do que a presença de cores vibrantes. As mulheres, além de protagonistas, concentram toda a estrutura narrativa. As mulheres de Almodóvar são fortes e os homens apresentam traços de feminilidade. Os personagens são complexos e vivenciam situações-limite. Uma de suas personagens imperfeitas, Manuela busca um reencontro consigo mesma em sua volta para Barcelona. Ao perder-se, a personagem busca se encontrar, uma volta às suas origens. Agrado, travesti interpretado pela atriz Antónia San Juan, ao listaras transformações que seu corpo sofreu, nos coloca uma questão filosófica: o que é uma mulher? No roteiro de Almodóvar, "uma pessoa é tanto mais autêntica quanto mais se parece com aquilo que ela sempre sonhou para si mesma".
opções objetivas e subjetivas, que promovem abordagens dimensionadas desde os instintos até a racionalização das formas de produzi-lo e de experimentá-lo. A sexualidade aparece como o principal objeto para discutir este aspecto humano que une impulso e sentimento. O que mais se percebe nos filmes é a necessidade de realizar o prazer. As escolhas narrativas do diretor são mesclas de estruturas dramáticas, de deboche, de melodrama , de personagens grotescos e elementos modernos que transitam entre o pop, o humor ácido e o kitsch.
Almodóvar. O diretor opta pelo ecletismo, misturando gêneros e a cultura moderna de objetos coloridos a elementos tradicionais da cultura espanhola. No mundo, esse movimento operava com signos estéticos de cores inusitadas massificados pela publicidade e pelo consumo, usando como materiais principais: gesso, tinta acrílica, poliéster, látex, produtos com cores intensas, fluorescentes, brilhantes e vibrantes, reproduzindo objetos do cotidiano em tamanho consideravelmente grande, como de uma escala de cinquenta para um, objeto pequeno, e depois ao tamanho normal.
Almodóvar surge quando o cinema espanhol está no limiar do esgotamento de uma tradição. Nesse sentido, a acidez de seu humor se justifica pela possibilidade de explorar situações mórbidas, o politicamente incorreto, buscando extrair comicidade ou inserir elementos mórbidos, macabros e trágicos em situações cômicas. Entre os temas retratados pelo humor ácido estão a morte, as doenças, as desgraças, entre outros. O interessante dos personagens é que há aceitação e redenção – ou buscas nesse sentido. São camadas de histórias que vão se sobrepondo e revelam um roteiro complexo e personagens psicologicamente instáveis.
baratos, sentimentais, bregas, que copiam referências da cultura erudita sem critério e não atingindo o nível de qualidade de seus modelos. Embora o kitsch apresente a si mesmo como profundo, artístico, importante ou emocionante, raramente estes predicados são verificáveis quando se analisa uma obra de perto. É um produto da industrialização e da cultura de massa, sendo considerado típico da classe média com pretensões de ascensão social, ainda que também utilizado com intenção pejorativa e como reprovação moral. Entretanto, o kitsch é um fenômeno de largo alcance, movimenta uma indústria milionária e para grande número de pessoas constitui, mais do que uma simples questão de gosto, todo um modo de vida, tendo para este público todos os atributos da legitimidade.
muitos artistas influentes do "grande circuito", e quase toda a arte, arquitetura e design pós-modernos apresentam características que podem ser classificadas como kitsch. Hoje em dia a tradicional distinção entre ele e a cultura erudita dificilmente se sustenta em bases objetivas.
esperpento, estilo espanhol que tem suas raízes dentro da literatura, da pintura e do teatro. Esteticamente está relacionado ao mundo do carnaval, apresentando personagens fantasiados e um espírito da festa. Nele se encontram a inversão de papéis sociais, a paródia, a caricatura, as brincadeiras picarescas – que mergulham no ridículo –, as piadas chulas e outras obscenidades. Junte-se a isso o hibridismo e outras obscenidades.
CONDUTOR DA NARRATIVA O cinema de Almodóvar possui narrativa não linear e é autorreferencial, com roteiros que pregam a diversidade, a liberdade feminina, a naturalização do sexo, e as vergonhas. Mesmo a traição é tratada sem culpas Outro elemento constantemente presente é o travesti, com personagens inspirados no teatro na rua, e na Espanha obscura dos guetos e da abertura política. Nesse conjunto também encontramos personagens michês, psicopatas, sadomasoquistas, gays e pervertidos. No âmbito das narrativas, o que conta é a realização desenfreada do desejo sexual sem limites. Em Almodóvar, a satisfação é uma pulsão.
sobre a própria linguagem. Por exemplo, quando o assunto de um livro é outro livro ou quando um filme tem como tema a gravação de outro filme. No cinema, a metalinguagem tem como principal função revelar as estratégias narrativas usadas pelo cinema para explicitar o seu código e remeter-se à sua própria estrutura, seja através de citações intertextuais ou mesmo na relação do espectador com o reconhecimento do discurso cinematográfico. Em Tudo Sobre Minha Mãe, seria Esteban o roteirista de um enredo sobre sua própria mãe?
por sua fotografia peculiar. O mix de cores vibrantes e caóticas, os elementos trazidos da cultura popular usados tanto no figurino quanto na cenografia não são os únicos a definir a estética do diretor. A paleta de cores em seus filmes sempre foi vibrante, mas se há uma dominante, esta é o vermelho. Símbolo de amor, de paixão, de ódio e de sangue, ela parece simbolizar os sentimentos que o cineasta faz questão de evocar ao longo de seus filmes, seja no detalhe de um sapato ou num vestido, seja num cenário extravagante.
El deseo: o apaixonante cinema de Pedro Almodóvar. São Paulo: Senac, 2011. HOLGUÍN, Antonio. Pedro Almodóvar. Madri: Cátedra, 1994. PEREIRA, Carlos Alberto. O que é contracultura. São Paulo: Braziliense, 1992. PORTELA, Rosana Silva. A micropolítica do desejo no cinema de Pedro Almodóvar: análise da primeira fase da obra do cineasta espanhol. Dissertação de Mestrado (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). São Paulo, 2011. STRAUSS, Frederic. Conversas com Almodóvar. São Paulo: Zahar, 2008.